Com a volta da vida social impulsionada pelo abrandamento da pandemia do novo coronavírus, um tipo de aparelho se popularizou entre os jovens: os cigarros eletrônicos. O produto é similar ao cigarro “analógico”, mas funciona de forma diferente, com uma bateria que aquece um líquido, transformando-o em vapor. Essa fumaça é inalada e traz a sensação prazerosa esperada pelos usuários. Na comparação com o modelo comum, os cigarros eletrônicos ainda podem ter essências diferentes, que variam desde bebidas alcoólicas a doces, entre outros aromas. No entanto, o produto também traz riscos à saúde – como a possibilidade de desenvolvimento de uma infecção pulmonar – e pode causar dependência por conter nicotina.

Os cigarros eletrônicos são proibidos no Brasil desde 2009, por determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em razão dos riscos e da falta de comprovação científica de que ajudaria fumantes a largarem o cigarro. A agência reguladora ainda acompanha os efeitos da proibição através de análises de impacto regulatório. À Jovem Pan, o órgão afirmou que, no momento, não é possível saber se haverá mudança na questão regulatória, destacando que a Pesquisa Nacional de Saúde mais recente (PNS 2019 – IBGE), apontou uma prevalência de 0,6% do uso de cigarros eletrônicos pela população brasileira de 15 anos ou mais anos; no mesmo ano, 12,6% da população que está acima da maioridade fumava os cigarros convencionais. Pesquisa do instituto Datafolha, divulgada em fevereiro deste ano, indicou que 3% da população brasileira acima de 18 anos usava dispositivos eletrônicos para fumar.

O item se popularizou nos Estados Unidos e virou febre no Brasil com a volta das rotinas de festas e eventos. O aumento da circulação de pessoas gerou um efeito imediato: houve um crescimento das apreensões do aparelho. Segundo a Receita Federal, em 2019 foram apreendidas 24.652 unidades, com valor estimado de R$ 1.921.365,71; em 2020, foram 34.128 unidades, que poderiam gerar R$ 2.154.226,01; em 2021, o número saltou para 451.316 unidades apreendidas – o equivalente a quase R$ 18 milhões retirados do mercado. Apenas em uma operação realizada em São Paulo, no dia 21 de setembro de 2021, 135 mil cigarros eletrônicos e 325 mil essências foram levados por agentes da Receita, da Polícia Civil e da Guarda Civil Metropolitana. De acordo com os dados mais recentes, computados entre janeiro e fevereiro de 2022, a Receita apreendeu 148.626 unidades, entre cigarros e essências – o valor representa quase um terço do total apreendido nos 12 meses de 2021. O órgão atribui o aumento a um fortalecimento da fiscalização, mas também a um crescimento no uso dos cigarros eletrônicos durante a pandemia.

Ainda assim, não é difícil comprar cigarros eletrônicos no Brasil. Os itens podem ser encontrados à venda em marketplaces de sites famosos e em grupos de vendas nas redes sociais. Nas ruas, também é fácil encontrá-los em tabacarias, lojas de bebidas ou mesmo em shoppings, como relata o estudante de direito Bernardo Antonelo. “Costumo comprar em uma loja que fica no shopping da minha cidade natal, Sorocaba. O meu único problema veio com vendedor online, que me vendeu um falso por preço de original”, relatou à Jovem Pan o aluno de 18 anos, que diz preferir essências de sabores doces como Skittles e Blueberry Ice. O nome foi trocado a pedido do entrevistado.

RISCOS

Segundo médicos ouvidos pela reportagem, o cigarro eletrônico pode causar problemas à saúde mesmo a curto prazo, aumentando o risco de lesões nos pulmões e de doenças cardiovasculares. Em 2019, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças nos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) nomeou uma doença específica causada pelos cigarros eletrônicos, a Evali (sigla para lesão pulmonar causada por uso associado a cigarros eletrônicos ou vapes). “Tem uma variação de sintomas, mas costuma causar tosse, falta de ar, febre, dor de cabeça, insuficiência respiratória e até óbitos”, explica Celso Padovesi, pneumologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo. “Pode ser um problema tão grave quanto o que a Covid-19 produz, através das substâncias químicas liberadas pelo aquecimento do aparelho, e causar uma queimadura química no pulmão. Em alguns casos, ficaram sequelas”, afirma Liz Maria de Almeida, médica Coordenadora de Prevenção e Vigilância do Instituto Nacional do Câncer (INCA).  Ao menos 61 mortes ligadas à Evali ocorreram nos Estados Unidos. Ainda não há dados sobre óbitos no Brasil.

Sobre doenças como câncer, ainda não é possível estabelecer uma correlação com o uso dos cigarros eletrônicos. “Essas enfermidades costumam surgir após 30, 40, 50 anos de uso, e eles não são usados há tanto tempo assim. Descobriremos o problema com toda a certeza daqui a 20 anos, com a realização de estudos. É provável que sim, devido à presença de nicotina”, afirmou Padovesi. Um estudo realizado pela Universidade de Nova York em 2019 apontou risco maior de câncer de pulmão em ratos. Contudo, conclusões para o organismo humano só virão com mais pesquisas no futuro. Liz de Almeida, do INCA, aponta outro fator de risco. “O cigarro eletrônico, por vezes, traz elementos cancerígenos, incluindo formaldeído. Ele não é seguro para quem está perto e pode inalar a fumaça”, explica.

A presença de nicotina pode causar vício. “Uma vez que tenha nicotina, o cigarro eletrônico tem capacidade de desenvolver dependência química. A pessoa associa com determinados momentos da vida, quando está com amigos, com bebida, quando acorda, quando toma café, o que gera uma dependência comportamental, se torna parte do dia a dia”, diz Almeida. Antonelo relata algo parecido. “Eu costumo fumar mais sozinho em casa, realizando as minhas tarefas e trabalhos. Em festas eu levo, mas não fumo tanto”, conta. Também pode ocasionar síndromes de abstinência, com sintomas como angústia, dificuldade de concentração e dificuldade para dormir quando o indivíduo fica muito tempo sem fumar.

Outra preocupação é que o cigarro eletrônico seja porta de entrada para o cigarro comum. “A expansão se deu muito entre crianças e adolescentes, e pesquisas em redes sociais mostraram que eles usavam em banheiros e lanchonetes, e se tornaram dependentes. Outros estudos demonstraram que quem nunca tinha fumado, depois que usava, tinha três vezes mais chances de começar a fumar cigarro comum, e quatro vezes mais chance de virar fumante regular. Quem era fumante e parou de fumar, mas entrou em contato com cigarro eletrônico, tinha mais chance de voltar para o cigarro comum, devido ao contato com a nicotina”, informa Almeida. O temor aumenta porque a maior faixa de usuários é bastante jovem. “Quando a indústria viu que não os cigarros eletrônicos não tinham sucesso com os fumantes, mas sim com os não-fumantes, com a garotada, ela direcionou toda a propaganda, os formatos, as cores, para o público jovem. Quanto mais cedo você transforma alguém em usuário, mais tempo ela vai usar”, destaca a médica do INCA.

Para os jovens, os benefícios são mais “simples” em relação aos do cigarro comum. “Já fumei por quase três anos, um maço a cada duas semanas. A maior diferença para mim se dá na questão do cheiro. Não só o cheiro que impregna na sua roupa, nos seus dedos, mas, se eu tivesse que destacar uma vantagem do cigarro comum, diria que é o preço bem mais acessível. Também tem a possibilidade de fumar em qualquer lugar, sem precisar sair do ambiente”, diz Antonelo. No entanto, fumar cigarros eletrônicos em lugares fechados também pode causar problemas a outras pessoas que estiverem no ambiente.

Os dois médicos entrevistados pela Jovem Pan se posicionaram de forma contrária a uma alteração na regulamentação que libere os cigarros eletrônicos. “Algo que necessariamente produz uma dependência química, mesmo liberado, continua sendo uma droga e que tem todos os problemas de saúde. Não tem como justificar. Na realidade, precisamos convencer as pessoas de que ninguém precisa de nicotina na vida, não é algo necessário. Temos que fazer alertas no sentido de esclarecimento, para que as pessoas tenham livre-arbítrio mediante informação. Cigarro eletrônico não tem nada de bom, induz dependência, começa-se a gastar dinheiro com isso para evitar abstinência. Se podemos usar tantas coisas boas para ter prazer, por que pegar uma que faz mal?”, questiona Almeida. “Como médico, não acho que deveria ser liberado. O cigarro comum deveria ter mais dificuldades para ser comprado, porque aumenta os gastos da saúde pública. Ser a favor da liberação é igual a ser a favor de que as pessoas façam mal à própria saúde. Além disso, não acredito que a legalização traga alguma segurança a mais para o usuário”, reforçou Padovesi. Com os aparelhos ainda proibidos, quem faz uso do dispositivo segue se preocupando com os riscos à saúde. “Tenho muitas questões, principalmente pelo fato de ter uma quantidade maior de nicotina e eu fumar com muito mais constância do que o cigarro ordinário. Estou começando a controlar e me policiar muito”, afirma o estudante de direito.

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